O Google fechou no Brasil o maior acordo de remoção de carbono de sua história. O projeto será desenvolvido no Rio Grande do Sul em parceria com a empresa de tecnologia climática Terradot e pretende operar em uma escala incomum para esse tipo de iniciativa.
A proposta combina duas frentes: retirar dióxido de carbono da atmosfera por meio do chamado intemperismo acelerado de rochas e reduzir emissões de metano associadas ao cultivo de arroz. A iniciativa deve alcançar mais de 200 mil hectares e foi apresentada como um modelo que, se funcionar em escala comercial, poderá ser replicado em outras regiões produtoras.
Como funciona o intemperismo acelerado
O processo parte de um fenômeno natural. Determinados minerais reagem com o dióxido de carbono ao longo do tempo, transformando-o em compostos mais estáveis. A tecnologia tenta acelerar esse mecanismo utilizando material rochoso moído e distribuído sobre áreas agrícolas.
Na prática, o desafio não é apenas fazer a reação acontecer. É necessário medir quanto carbono foi efetivamente removido, acompanhar possíveis impactos no solo e estabelecer um sistema de verificação confiável para os créditos de carbono gerados.
Por que o arroz entrou no projeto
As lavouras de arroz irrigado também são relevantes para a discussão climática porque podem emitir metano, um gás de efeito estufa muito mais potente que o dióxido de carbono no curto prazo. O projeto apoiado pelo Google pretende atacar as duas fontes ao mesmo tempo: a presença de CO₂ na atmosfera e parte das emissões de metano da produção agrícola.
A meta anunciada envolve a geração de até 1 milhão de toneladas métricas de créditos associados à redução de metano até 2030 e outros 1 milhão de toneladas em créditos de remoção de carbono até 2040. Os números representam metas futuras e dependem da implementação, do monitoramento e da verificação dos resultados.
A pressão ambiental da corrida da inteligência artificial
O movimento também ocorre em um momento de forte expansão da infraestrutura necessária para inteligência artificial. Data centers consomem grandes volumes de eletricidade e água, o que aumentou a pressão sobre empresas de tecnologia para demonstrar como pretendem lidar com o crescimento de sua pegada ambiental.
Em seu Relatório Ambiental de 2026, o próprio Google afirmou que a rápida expansão da IA vem impondo novas demandas à infraestrutura elétrica global. A empresa também informou ter contratado mais de 12 GW de energia limpa em 2025 e reconheceu que cumprir suas metas climáticas se tornou mais difícil com o crescimento da computação em larga escala.
O Brasil como laboratório de uma tecnologia ainda cara
O projeto gaúcho chama atenção porque leva uma tecnologia de remoção de carbono para uma área agrícola extensa e combina sua aplicação com a redução de metano. Ao mesmo tempo, o custo desse tipo de remoção ainda é uma barreira. O valor continua acima da referência de US$ 100 por tonelada que muitos participantes do setor consideram importante para uma adoção mais ampla.
O objetivo das empresas é reduzir esse custo conforme a operação ganha escala e os métodos de medição e verificação amadurecem. A expectativa é que a experiência brasileira ajude a mostrar se o modelo pode sair de projetos limitados e chegar a uma operação comercial maior.
Se os resultados forem confirmados, a combinação entre agricultura, remoção de carbono e redução de metano poderá servir de referência para regiões produtoras de arroz em outros países. Índia e Vietnã estão entre os mercados em que a abordagem poderia ser replicada futuramente.
Foto ilustrativa: Doan Tuan / Unsplash.






